quinta-feira

Os Sertões




Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona e a Petrobras lançam no cinema (e em cinco DVDs) a versão cinematográfica de Os Sertões, épico de Euclides da Cunha adaptado para o teatro pela Cia. Oficina sob a direção de José Celso Martinez Corrêa. A maratona de lançamento com os cinco filmes – A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II.
Com direção geral do próprio Zé Celso, os cinco filmes são assinados por diretores distintos, que entre fevereiro e março de 2007 se revezaram para mesclar teatro e cinema na busca de uma formatação híbrida que traduzisse para as telas a “TragyComedyOrgya” que vem caracterizando a produção do Teatro Oficina. Sendo assim, Tommy Pietra (A Terra), Fernando Coimbra (O Homem I), Marcelo Drummond e Gabriel Fernandes (O Homem II), Elaine César (A Luta I) e Eryk Rocha e Pedro Paulo Rocha (A Luta II) levam para o formato HD (com som dolby 5.1) suas (trans)versões autorais da premiada obra teatral do Oficina, aprofundando a busca do grupo por uma linguagem que quebre a barreira da mera encenação e integre as artes cênicas a música, ao vídeo e ao cinema.
Câmeras diretores – Das 810 horas de material bruto, o resultado final contempla cerca de 26 horas de filme e mais extras, com os bastidores do projeto. Cada peça foi gravada na sede do Teatro Oficina no bairro do Bixiga, em São Paulo, e contou com um diretor de fotografia diferente. Todas as 11 câmeras utilizadas foram móveis, auxiliadas por uma grua (disposta na última galeria do teatro) e pela participação de um stead cam e uma flying cam, dando ao espectador a sensação de participar da cena. “Oito câmeras eram manipuladas por diretores de cinema ou diretores de fotografia”, lembra o ator e cineasta Lucas Weglinsky, que também assina a produção executiva do projeto.
Para ele, a excelência técnica alcançada pelos cinco filmes coloca a pesquisa da Cia. Oficina em outro patamar. “O resultado superou as expectativas e mostra que as diversas linguagens são ferramentas através das quais podemos assumir novas possibilidades de arte; com os cinco filmes fazemos uma trans-versão, ou seja, uma nova versão da obra teatral, que já era uma trans-versão da obra de Euclides da Cunha”. Sendo assim o público do cinema não verá a versão filmada das peças, mas uma obra com uma linguagem cinematográfica própria, que cria um percurso do olhar filtrado tanto pelos seus diretores, quanto pelas centenas de colaboradores do processo criativo das cinco peças teatrais encenadas entre 2002 e 2007 pela Cia. Oficina, sob a direção de Zé Celso.



Zé Celso comenta o resultado dos filmes:
“A filmagem da obra Os Sertões de uma maneira nova, sem câmeras fixas, transforma os filmes em caleidoscópios, com visões, ângulos e diversidade que nem o teatro ao vivo, nem a TV, nem o cinema conseguem”. Para o diretor Zé Celso, essa experiência amplia o diálogo que a Cia Oficina vem desenvolvendo com a linguagem audiovisual e a internet. “Ela traz ao teatro e ao cinema novas perspectivas!”, afirma, lembrando que a luz, as câmeras, os atores, os microfones e o público reescrevem nos filmes a obra prima de Euclides da Cunha. E como não poderia deixar de ser, o público aparece no resultado final como personagem fundamental, reforçando a idéia de uma arte ativa e participativa, em que a possibilidade de interferência de cada um é sempre valorizada – e incentivada.
“Essas obras superam os DVDs já filmados por nós, não somente pela extraordinária evolução do Cinema Digital, mas pela intuição dos diretores que cortaram as peças sem interromper o fluxo da ação teatral, o que as tornou extraordinárias e, paradoxalmente, absolutamente cinematográficas. Uma revolução mesmo na linguagem do Cinema”. Zé Celso lembra que ao montar os DVDs das peças Ham-let, Bacantes, Boca de Ouro e Cacilda!, optou por cortar a ação teatral para dar agilidade de cinema. “Estas montagens de Os Sertões dão um salto, superam minha ingenuidade de montador e revelam um objeto digital desconhecido em formas de obras realmente primas. Fui absolutamente superado como montador”, conclui.


Início do filme de A Terra, dirigido por José Celso Martinez Correa e Tommy Della Pietra:



Fonte: Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Ozona

quarta-feira

Mike Leigh

Mike Leigh, diretor de teatro e cineasta
É sempre um mistério o processo de criação de um filme de Mike Leigh. Ao contrário da maioria dos diretores, que desenvolve o roteiro e só depois pensa no intérprete, Leigh segue o percurso rigorosamente inverso. Ele escolhe o ator, ou atriz, define o personagem e faz uma espécie de laboratório, criando as situações e até diálogos com o elenco. A improvisação é consolidada no roteiro escrito, que vira bíblia no set de filmagem, raramente sendo trocado (uma palavra que seja). Como se dá esse processo? "É muito complicado, levaria muito tempo para explicar", desconversa o diretor. O conflito entre Poppy e Scott, por exemplo, não estava na origem do filme. Surgiu depois. "Você precisa explorar e desenvolver os personagens. Uma ideia dessas não pode estar no conceito do filme, porque só depois de trabalhar muito os personagens você pode chegar ao drama. É como a vida. Você precisa viver para se comprometer e, eventualmente, errar e acertar."


Premiação em Cannes em 2010 pelo fime Another Year
O caso de Simplesmente Feliz ainda parece mais radical porque nunca, como aqui, a história de um filme de Mike Leigh pareceu tão episódica. É como se não houvesse realmente uma história, mas uma sucessão de vinhetas traçando o retrato de Poppy e seu mundo. Por mais que o diretor queira ser reticente, o repórter insiste no ?como?. Leigh explica - "O ponto de partida é essencial. Reúno pessoas talentosas e juntos criamos personagens, situações e diálogos. O universo do filme ganha vida por meio de um processo criativo que não tem uma duração. Em alguns filmes esse processo demora mais. Minha função é guiar a equipe e ir desenhando a narrativa numa linha que me estimule como diretor." O longo período entre Vera Drake e Simplesmente Feliz tem a ver com dificuldades particulares no processo de criação do novo filme? "Não, porque não consigo fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo. Logo depois de Vera Drake desenvolvi um projeto para teatro que me tomou um bom período. Esta peça, inclusive, foi montada no Brasil (A Festa de Abigaiu)." Mike Leigh faz uma ressalva importante - essa descrição ?genérica? do processo pode dar uma idéia equivocada de como ele cria. "O princípio básico é que só eu tenho o conhecimento integral do filme. Cada ator conhece o seu personagem, como na vida, onde cada um conhece o seu script e, às vezes, nem este." Mike Leigh fala muito em vida, compara seu cinema à vida. "É o que me interessa, a realidade. Minha maneira de encarar o cinema é propondo aos atores e aos espectadores que participem de uma jornada de conhecimento comigo."

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090327/not_imp345542,0.php

Simplesmente Feliz (2009)

Vera Drake (2004)

terça-feira

Charlie Chaplin

Charlie Spencer Chaplin Jr.

Mais conhecido como Charlie Chaplin, nasceu em Londres no final do século XIX e seu falecimento foi em meados do século XX, famoso por ser o revolucionário do cinema mudo, foi ator, diretor, produtor, dançarino, roteirista e músico. Chaplin foi um dos atores mais famosos do período conhecido como Era do Ouro dos Estados Unidos, tornou-se uma das personalidades mais criativas e influentes da era do cinema mudo, pelo fato de sido escritor, produtor, compôs as trilhas sonoras do seu próprio filme além da sua atuação ser bem consagrada.

O revolucionário do cinema mudo foi totalmente influenciado por um antecessor, o comediante francês Max Linder a que a ele se dedicou um dos seus filmes. Sua carreira durou mais de 75 anos, pois desde criança atuava nos teatros do Reino Unido na Era Vitoriana quase até a sua morte com 88 anos. Juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbancks e D.W. Griffith, Chaplin co-fundou a United Artists em 1919. Contribuiu com o desenvolvimento da sétima arte, Chaplin assim foi o mais homenageado cineasta de todos os tempos e condecorado ainda em vida pelo governo britânico, governo francês, pela Universidade de Oxford e pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas do Estados Unidos.

Seu principal e mais conhecido personagem foi Charlot na Franca e no mundo francófono, na Itália, Romênia, Grécia, Turquia, Portugal, e como Carlitos ou também como “O Vagabundo”, no Brasil, um andarilho pobretão que possui todas as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro usando um fraque preto esgarçado, calcas e sapatos desgastados e mais largos que seu número, uma cartola e uma bengala de bambu e sua marca pessoal – um bigode - de – broxa.




Prêmios Competitivos – OSCAR

1940 - Chaplin foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original e Melhor ator em O Grande Ditador.

1948 – Oscar de melhor roteiro original em MonsiuerVerdoux

1972 – Oscar de melhor trilha sonora pelo filme Luzes da Ribalta, de 1952, foi também de grande sucesso. O filme foi co-estrelado por Clarie Bloom contando com a participação no filme de Buster Keaton, foi a única vez que os dois comediantes apareceram em cena juntos. Na época devido as perseguições contra Chaplin o filme não chegou a ser exibido durante a semana em Los Angeles quando foi originalmente lançado. Este critério de nomeação foi desconsiderado até 1972.
Tempos modernos

O Cavalheiro

O vagabundo


"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos." C. Chaplin

segunda-feira

Oh! Rebuceteio


Não podemos nos esquecer de postar um material desse gênero tão esquecido (de propósito) e subversivo que reinou em nossas telas na década de 70 até meados da de 80 do século passado: o Pornochanchada. De cara o nome do filme "Oh! Rebuceteio" (1983) já nos remete a idéia do que irá por vir, uma mistura de Rebu (uma grande confusão) com o órgão sexual feminino e tudo isso em alusão a peça/filme "Oh! Calcutá". Produzido, dirigido e atuado por Cláudio Cunha o filme trás a tona todas aquelas historias da liberdade sexual no meio artístico. "Uma peça comercial, um diretor pervertido (quase um guru) e um jovem elenco que fará tudo para entrar na peça", a grosso modo essa é a sinopse do filme. Muitas cenas de sexo explicito e muito voyeurismo fazem de Oh! Rebuceteio um exemplar típico dessa exceção do cinema brasileiro.


Trailer:


As referências as experimentações vividas pelos grupos de teatro são evidencia clara no decorrer do filme. Vide esse momento em que o diretor da peça, personagem de Claudio Cunha, cita as mascaras de Delsarte:



Pornochanchada! O gênero que foi esquecido ou fizeram esquecer?

Morre o cineasta britânico Peter Yates, diretor de "Bullit"

peter_yates
O cineasta britânico Peter Yates, diretor do filme "Bullitt", protagonizado por Steve McQueen, morreu no domingo em Londres aos 82 anos após ter enfrentado uma longa doença, segundo a publicação "Deadline".
Na ampla filmografia de Yates, nascido em Aldershot (Hampshire) em 1929, figuram também outros filmes famosos como "John e Mary", "Sob Suspeita", "O Fiel Camareiro" e "Os Amigos de Eddie Coyle".
O britânico foi quatro vezes indicado ao Oscar, primeiro como Melhor Diretor e Melhor Produtor por "O Vencedor" (1979), e depois por "O Fiel Camareiro" (1983), adaptação da obra de teatro homônima de Ronald Harwood, nas mesmas categorias.
O êxito de "Os Vinte e Seis do Expresso Postal" (1967), filme de ficção inspirado no grande roubo do trem de Glasgow de 1963, que inaugurou um gênero de "thrillers" de roubos de banco, abriu as portas de Hollywood ao diretor, onde fez seu primeiro longa-metragem americano, "Bullitt" (1968), considerado um clássico dos filmes de perseguição.
"Bullitt" ganhou o Oscar de Melhor Edição e quatro Globos de Ouro: direção, montagem, trilha sonora e ator coadjuvante (Robert Vaughan).

Por: Da Efe, em Londres.
Foto: Divulgação
Fonte: Folha Online

Eis aí a famosa cena de perseguição do filme Bullitt:





Detalhe para a trilha sonora que inicia com um clima bem jazzy e depois é trocada pelos sons dos carros. Uma sinfonia de arrancadas, queimadas de pneu, acelerações e explosões. De fato, a cena de Bullitt é de deixar qualquer filme da franquia "Velozes e Furiosos" no chão, literalmente, comendo poeira.

domingo

Dogville e Bertolt Brecht


Quando o cinema nasceu com os irmãos Lumière, acreditava-se que ele servia pura e simplesmente para retratar a realidade. Com os planos gerais e câmeras fixas, víamos toda a ação acontecendo diante de nós como se fôssemos a quarta parede de uma sala, justamente como acontecia com o teatro clássico. Não demorou muito para que o cinema conseguisse a sua própria linguagem e inovasse com o passar do tempo.
O modelo clássico é o mais seguido e referenciado, assim como aconteceu no teatro. Cenários exuberantes, atores famosos e trilhas encantadoras nos fazem mergulhar de tal forma na tela que nem percebemos que tudo não passa de uma montagem de imagens que, unidas, fazem algum sentido. Às vezes até esquecemos dos planos e enquadramentos e nos vemos ali no meio da história.
Como Alfred Hitchcock já disse inúmeras vezes: "o ser humano é voyeur e é isto que garante que as pessoas fiquem horas diante de uma tela sendo enfeitiçados pela história". De certa forma, este encantamento também apareceu no teatro clássico. Mesmo com a distância da poltrona ao palco, somos engolidos pela fantasia de tal forma que pertencemos a ela.
O que vemos ali, no palco ou na tela, não chega a ser um retrato da realidade, como os criadores do cinema acreditavam, mas mesmo assim tendemos a acreditar que aquilo é real.
Entretanto, existiu um escritor e dramaturgo alemão que decidiu quebrar este paradigma de representação da realidade e nos lembrar constantatemente de que o que estamos vendo é uma peça de teatro: Bertolt Brecht. Para ilustrar as suas ideias, escolhemos o filme Dogville (2003), dirigido por Lars von Trier.

A maneira utilizada para filmar Dogville é o aspecto mais característico de Brecht. O filme foi rodado em um estúdio fechado e sem cenário, apenas com riscos desenhados no chão representando as casas e ruas do vilarejo. Até o cachorro é um desenho no chão, bem como a referência à cadeira de descanso e os arbustos, uma clara referência também ao cachimbo de Magritte. Isso já questiona se o que vemos é de fato a realidade ou uma representação dela.
No cinema e no teatro, isso nos faz lembrar que estamos assistindo a uma peça/filme e não que estamos vendo a história real.
Os atores circulam sobre a planta da cidade e atuam como se houvesse objetos invisíveis aos nossos olhos, sem paredes e portas, apenas com alguns móveis. É como uma criança que brinca de faz de conta e desenha uma casa no chão e passa a atuar nela como se fosse real.
A sonoplastia ajuda nossa imaginação quando a porta realmente faz barulho ao ser aberta pelos personagens.
Esta estética usada no filme mantém o espectador sempre ciente de que é uma representação da realidade. Todo filme foi gravado em um galpão da Suécia.
Dogville é um pequeno vilarejo isolado no alto das montanhas e de difícil acesso. A história mostra a rotina sossegada dos poucos habitantes do lugar, cada um com suas manias e conformismo. Thomas Edson Jr. é o único personagem que não se conforma com a situação pacata das pessoas e promove reuniões moralistas para comunidade refletir sobre suas ações, com o intuito de promover o bem no mundo.
O nome Dogville significa vila do cão, mas em um sentido mais subjetivo, diz que os habitantes desta vila agem como cães por instinto uma vez que o contexto da Grande Depressão trouxe miséria a algumas cidades. Brecht ressaltava que as causas podem levar às consequências diferentes porque o ser humano é capaz de fazer escolhas, vê-se isso em Dogville pela submissão de Grace e depois pela vingança.
Baseada no distanciamento entre público e personagem proposto por Brecht, o filme trabalha a história como um componente para reflexão e didática, apresentando um caráter não-ilusório e colocando os espectadores fora de ação para interromper identificações.
As ações acontecem frente às câmeras e, simultaneamente, as outras casas e personagens são exibidas ao fundo, provocando estranheza para quem assiste, mas é a melhor maneira de interromper a ilusão e trazer reflexão, pois acentua momentos dramáticos.
A narração em “off” acentua ainda mais que se trata de uma história sendo contada ao público, assim com a divisão em capítulos, que se assemelha ao teatro e à história, ou seja, é o narrador quem controla e da voz aos personagens. Brecht tinha um narrador que interrompia a ação e Von Trier também faz isso, comandando às vezes até a fala do personagem.
A principal característica encontrada no filme é a descontinuidade. Fica bem aparente como o diretor faz isso, pois coloca um letreiro informando o número do capítulo e o que irá acontecer, algo que é comum ao teatro Brechtiano. Enquanto muitos buscavam fazer as pessoas se sentirem no filme, Brecht fazia de tudo para que isso não acontecesse em suas peças.
No filme, apesar de seguir uma ordem cronológica dos fatos a divisão dos capítulos causa uma quebra, fazendo com que nos lembramos de que estamos assistindo a um filme. Nos momentos em que começamos a nos acostumar e ficamos compenetrados, os letreiros aparecem fazendo-nos lembrar de que aquilo não é real, é apenas uma história.
Por mais que os cenários não sejam comuns, chega a certo ponto no filme em que nos esquecemos disso, o cenário fica algo insignificante e nos tornamos atraídos pela narrativa. Quando aparece o número do capítulo, nossa concentração acaba por um momento e voltamos à realidade.
Devido a sua experiência de vida, Brecht adquiriu uma posição de luta pelos oprimidos, retratava de forma cênica as diferenças entre classes sociais e a injustiça do mundo. Podemos identificar essa estética na obra “O círculo de giz caucasiano”, onde a protagonista Grucha luta por Miguel, o menino de sangue real abandonado, o qual ela salvou da guerra e adotou com filho.
Nesta peça, Brecht representa as diferenças entre ricos e pobres e o caráter social deles. Ele sempre abordou temas que pudessem ser reconhecidos pelos espectadores e que trouxessem subjetividade.
Já notamos semelhanças entre o livro e o filme. A primeira referência se dá que o primeiro trata da situação das pessoas durante a Revolução Russa e o segundo da Grande Depressão. De certa forma, Von Trier e Brecht abordam a reação das pessoas simples diante de eventos de grande magnitude nos quais eles só fazem parte do cenário e não possuem voz ativa.
Em relação às personagens, há certa semelhança entre a personagem Grucha do livro “O círculo de giz caucasiano de Brecht” e Grace do filme “Dogville”. As duas estão durante toda a história fugindo de alguém. A diferença é que com Grucha conseguimos saber de quem e o motivo de sua fuga, já com Grace sabemos de quem ela foge, mas o porquê permanece um mistério durante todo o filme.
Ela chega à pequena cidade e começa a ajudar a todos, querendo ser agradável e permanecer por lá, enquanto Grucha ajuda o menino, vê que ele não seria bem tratado se continuasse com a verdadeira mãe e então foge com ele. Por mais que existam diferenças significantes em cada uma, a maneira como estão se preocupando com o outro cria uma semelhança entre as personagens.
Outro aspecto é que nas duas histórias há julgamentos em que nem sempre o que todos dizem ser o certo acontece. Em Dogville, primeiro Grace é julgada para que fique na cidade e as pessoas concordam mesmo sabendo que ela é uma fugitiva.
Depois, no final do filme ela julga as pessoas que maltrataram ela, matando todos e pensando que será melhor assim, não só para ela como para toda a humanidade eliminar aquela cidade, para que outros não sintam o mesmo que ela sentiu quando chegou.
No livro de Brecht o juiz impõe o veredicto que pensa ser o certo para ele, não de acordo com o que a humanidade e nossos costumes dizem ser o certo.
Quando resolve que o menino irá ficar com Grucha, por exemplo, o certo é que ele devesse ficar com a mãe verdadeira, mas o juiz acredita que Grucha fará o melhor por ele já que passou por tantas dificuldades e não puxou os braços dele no momento em que estava sendo julgada.

O cenário também dá a ideia do teatro. Na verdade não é o clássico cenário para cinema, mas é como se fosse uma maquete do que seria o cenário. O fato de toda a história acontecer em um mesmo local, lembra uma peça teatral, na qual os personagens que saem da cidade ou até mesmo aqueles chegam, só aparecem no momento em que estão nela realmente.
Não conseguimos saber o que acontece fora de Dogville. Até mesmo na cena em que Grace tenta fugir, só conseguimos ver ela deitada na traseira da carreta, e ela falando o quanto está andando, temos apenas a impressão de que ela saiu e está se deslocando, mas em nenhum momento vemos isso realmente.
Mas por que Lars von Trier seguiu as ideias de Bertold Brecht? Porque ele fazia parte do Dogma 95, movimento cinematográfico revolucionário que exigia não usar cenários, nem trilhas sonoras e a câmera deve estar sempre nos ombros do cineasta. Isto explica os movimentos bruscos com a câmera, imagens meio tremidas e cortes descontínuos.

Entretanto, Von Trier usa iluminação artificial, gruas para as tomadas do alto e de certa forma possui cenografia, mesmo que não seja exuberante, e isso contraria os princípios do manifesto ao mesmo tempo em que vai ao encontro às ideias de Brecht.
Tudo isso para reforçar que estamos vendo uma representação da verdade como um faz de conta, assim como você está lendo um recorte do filme analisado a partir de dramaturgo, o que significa questionar: este texto é real? Ou uma representação dele? Será que deveríamos ter cortado ele, colorido e feito diversas coisas estranhas para você lembrar que está lendo isto? Brecht e Lars von Trier teriam feito, certeza.
Texto de Livia di Bartolomeo, Bruna Marques e Mayara Picoli do blog:

O material a seguir é uma analise de Vitor Nunes Bustamente Reis e foi seu trabalho de conclusão de curso. "Dogville, o espectador a linguagem"

Prólogo:

Capítulo 1:

Capítulo 2:

Capítulo 3:

Capítulo 4:

Capítulo 5:

Capítulo 6:

Capítulo 7:

sábado

Sistema Stanislavski


Um dos grandes mestres da atuação mundial foi o russo Constantin Stanislavski, que no decorrer da vida desenvolveu um sistema de atuação denominado Sistema Stanislavski. Para o russo, o ator deveria estar o mais conectado possível ao seu papel. Dessa maneira, o personagem ganharia vida e forneceria ao ator recursos técnicos e psicológicos para a construção desse, através do aproveitamento de estímulos externos e do uso racional do senso de observação e da memória emotiva. Apesar do sistema ter sido criado para o teatro, no final do século XIX e início do XX foi bem respresentado no cinema através de escolas como o Actors Studio e por nomes como Marlon Brandon e Jack Nicholson. Aliás, quando falo acima em “estar mais conectado possível ao seu papel” e “dar vida ao papel” cito como exemplo a preparação de Nicholson antes de cada cena no making of do filme O iluminado.


Porém, para Walter Benjamin, raramente o ator cinematográfico vive como se estivesse na pele de um personagem, afinal as cenas de um filme são realizadas de maneira não cronológica, assim, ele não desempenha o papel de modo contínuo, mas numa série de seqüências isoladas. Benjamin, por sua vez, também aborda a diferença em atuar para teatro ou cinema. Ele explica que no teatro o ator em pessoa apresenta ao público sua própria atuação artística. Já a atuação do ator cinematográfico exige a mediação de todo um mecanismo. Para exemplificar a diferença existente entre a atuação do teatro e do cinema, o autor cita Pirandello. Para ele, os atores de cinema sentem-se como no exílio, afinal, seus corpos são quase volatilizados, suprimidos, privados de suas realidades. Aliás, no exílio não somente do palco, mas de si mesmos.

http://69.93.162.92/~fpolvo/arquivo.php?subaction=showfull&id=1176675966&archive=&start_from=&ucat=24&


Cena com Nicholson no filme "O Iluminado" de Stanley Kubrick

sexta-feira

My fair lady


Em 15 de Março de 1956 foi quando ocorreu a estreia na Broadway do que seria chamado futuramente pela crítica de "um dos melhores musicais do século". Contando a história da pobre vendedora de flores Eliza Doolitle, que falava um inglês de forma totalmente errada, e do professor Henry Higgins que estudava a fonética da lingua inglesa e ao cruzar com Eliza certa noite aposta com um amigo que em seis meses transformaria a moça em uma dama somente corrigindo sua forma de falar.
O musical My fair lady surgiu de uma adaptação do livro "Pigmalião" de George Bernard Shaw, com letras de Alan Jay Lerner, musica de Frederick Loewe. A adaptação para o teatro musical só ocorreu anos após a morte de George, que havia discordado em passar o texto para o teatro, e foi feita por Lerner e Loewe depois de alguns problemas com direitos autorais. Depois do roteiro pronto a próxima parte seria o elenco, Nöel Corward foi o primeiro a ser indicado para o papel do professor Henry Higgins, porém, não aceitou o papel e indicou Rex Harrison, para o papel de Eliza Doolittle foi indicada Mary Martin que também recusou o papel e foi substituída por Julie Andrews. Decidido o elenco, só faltava saber qual seria o nome da peça, o titulo atual teve influencia de um dos títulos provisórios dado ao livro por Shaw: Pigmalião- querida Liza, títulos como Lady Liza foram considerados, porém descartados posteriormente chegando ao atual My Fair Lady.
O musical foi um sucesso em sua primeira edição, tendo sua estreia no teatro Erlanger na Filadélfia e ficou em cartaz lá durante 4 semanas. Depois que chegou a Broadway, o musical teve fim no dia 29 de Setembro de 1962, foram 2.717 apresentações.
Tanto sucesso no teatro chamou atenção para as empresas cinematográficas. Com direção de George Cukor e possuindo novamente Rex Harrison como professor Higgins, o longa do musical foi feito em 1964. Com uma pequena mudança na atriz que faria Eliza, ao invés da já conhecida Julie Andrews, foi escalada para o papel da florista a jovem atriz Audrey Hepburn, o que acabou gerando alguma polemica, mas, quem conhece o trabalho de Hepburn sabe que ela sempre surpreende as expectativas do público e crítica.
No filme, principalmente por ter sido todo gravado no estúdio fechado, tem características marcantes no cenário que remetem ao teatro. Mas a influencia do teatro no filme não é perceptível somente pelo cenário mas, também pelas pausas marcadas que ocorrem durante as cenas e pela divisão do filme em dois atos sendo que, entre eles, existe o tempo do intervalo.

A ida de My fair Lady para os cinemas só ajudou a aumentar a popularidade do filme e a consagrar sua história e os atores que nela trabalharam. Tanto o musical quanto o filme receberam diversas premiações. A história da pobre vendedora de flores moradora de rua que sofre uma reviravolta em sua vida simplesmente porque aprendeu a falar o inglês em sua forma mais clássica ainda hoje se mostra apaixonante para várias as gerações.


Trailer do filme estrelado por Audrey e Harrison

Especial de TV que mostrou uma das músicas de Elize sendo intenpretada por Julie Andrews

O teatro e o cinema também acontecem em musicais da Broadway...

quinta-feira

Horror, the horror...

Monólogo final de "Apocalipse Now" por Marlon Brando:


"....Horror. Horror has a face...And you must make a friend of horror. Horror and moral terror are your friends. If they are not then they are enemies to be feared. They are truly enemies. I remember when I was with Special Forces...Seems a thousand centuries ago...We went into a camp to innoculate the children. We left the camp after we had innoculated the children for Polio, and this old man came running after us and he was crying. He couldn't see. We went back there and they had come and hacked off every innoculated arm. There they were in a pile...A pile of little arms. And I remember...I...I...I cried...I wept like some grandmother. I wanted to tear my teeth out. I didn't know what I wanted to do. And I want to remember it. I never want to forget it. I never want to forget. And then I realized...like I was shot...Like I was shot with a diamond...a diamond bullet right through my forehead...And I thought: My God...the genius of that. The genius. The will to do that. Perfect, genuine, complete, crystalline, pure. And then I realized they were stronger than we. Because they could stand that these were not monsters...These were men...trained cadres...these men who fought with their hearts, who had families, who had children, who were filled with love...but they had the strength...the strength...to do that. If I had ten divisions of those men our troubles here would be over very quickly. You have to have men who are moral...and at the same time who are able to utilize their primordal instincts to kill without feeling...without passion...without judgement...without judgement. Because it's judgement that defeats us."

quarta-feira

O grande ator


Marlon Brando Jr. (Omaha, 3 de abril de 1924 Los Angeles, 1 de julho de 2004) ator americano, considerado um dos maiores atores de língua inglesa de todos os tempos, vide sua carreira e todos seus prêmios. Na sua juventude foi um aluno rebelde e chegou a ser expulso de diversas escolas, porém sempre se destacava nas aulas de teatro. Acabou se mudando para New York City e lá estudou em várias escolas de teatro com destaque para o tempo em que estudou com Stella Adler e no Actors Studio. Foi com Stella, a única professora nos EUA que realmente teve contato com Stanislavski. Brando foi um dos maiores responsáveis pela difusão do método Stanislaviski, mesmo sendo o método da Actors Studios apenas uma interpretação da obra do teatrólogo Russo. Contudo, sua fama e sucesso fizeram que atores mundo afora fossem procurar saber como e onde estudou esse genial ator.


Começou a chamar atenção atuando na peça de Tennesse Williams (Um bonde chamado desejo), que chegou a ser filmada e lançada para o cinema, no Brasil recebeu o nome de “Um rua chamada pecado”.

Marlon Brandon e Vivien Leigh - A Streetcar Named Desire de Elia Kazan

Desse momento em diante, o caminho para Hollywood estava aberto. Então Brando começou sua carreira no cinema. Aqui temos alguns grandes registros de Marlon Brando em filmes inesquecíveis:

Julius Caesar (1953) - Personagem: Marco Antônio. Adaptação da peça de W. Shakespeare com direção de Joseph L. Mankiewicz.


The Wild One (O selvagem) (1953/1954) - Personagem: Johnny Strabler. Direção de László Benedek e produzido por Stanley Kramer. Nesse filme Brando chegou ao status de galã e ídolo dos jovens na época.



On the Waterfront (Sindicato de Ladrões) (1954) - Personagem: Terry Maloy. Direção: Elia Kazan. Venceu o Oscar como: Melhor filme, melhor ator (Brando), melhor diretor, melhor atriz coadjuvante (Eva Marie Saint), melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor edição e melhor roteiro.





The Godfather (O Poderoso Chefão) (1972). Personagem: Don Vito Corleone. Direção de Francis Ford Coppola e escrito por Mario Puzo. Venceu três Oscar: Melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor ator (Brando).



Ultimo Tango a Parigi (Último tango em Paris) (1973). Personagem: Paul. Direção de Bernardo Bertolucci. Estrelado pro Brando e Maria Schneider.





Premiações:
7 indicações e 2 premiações do Óscar da Academia para Melhor Ator (principal), nos seguintes filmes:
* Uma Rua Chamada Pecado(1952)
* Viva Zapata!(1953)
* Julius Caesar (1954)
* Sindicato de Ladrões (1955) - Venceu
* Sayonara (1956)
* O Poderoso Chefão (1973) - Venceu
* Último Tango em Paris (1974)
Uma indicação ao Óscar de Melhor Ator (coadjuvante/secundário):
* Assassinato Sob Custódia" (1990).
3 vitórias de 4 indicações ao Golden Globe Award para Melhor Ator (filme dramático), nos seguintes filmes:
* 1955:On the Waterfront - Venceu
* 1958: Sayonara
* 1964: The Ugly American
* 1973: The Godfather - Venceu
Recebeu uma indicação ao Golden Globe Award para Melhor Ator (comédia ou musical) em cinema, por "Casa de Chá do Luar de Agosto" (1956).
Recebeu uma indicação ao Golden Globe Award para Melhor Ator (coadjuvante/secundário) em cinema, por "Assassinato Sob Custódia" (1989).
3 vitórias de 6 indicações ao BAFTA de Melhor Ator Estrangeiro, no seguintes filmes:
* 1953: Viva Zapata! - Venceu
* 1954: Julius Caesar - Venceu
* 1955: On the Waterfront - Venceu
* 1973: The Nightcomers
* 1973: The Godfather
* 1974: Last Tango In Paris
Recebeu uma indicação ao BAFTA de Melhor Ator (coadjuvante/secundário), por "Assassinato Sob Custódia" (1989).
Ganhou o prémio de Melhor Ator, no Festival de Cannes, por "Viva Zapata!" (1952).
Ganhou o prémio de Melhor Ator, no Festival de Tóquio, por "Assassinato Sob Custódia" (1989).


“Um grande ator.”

Normalmente tratamos de Brando assim, fato que é inegável. Toda sua história está registrada em sua filmografia extensa, repleta de grandes atuações e sucessos estrondosos. Com o começo de sua carreira no teatro e toda sua devoção à sétima arte, impossível seria deixar de fora esse grande ator. Fica aqui nossa homenagem com a primeira postagem do Blog “Cinema e Teatro”. Parabéns, Marlon Brando.